Friday, June 13, 2008

Charges de Latuff (clique para ampliar)


























Saturday, May 03, 2008

Instante Eterno

Futucando aqui me lembrei que já tive um fotolog e pra minha surpresa ele ainda está no ar. Durou pouco mais de um mês. Quis fugir do que se tornou tradicional naquele espaço virtual. Seria hipócrita se dissesse que não queria "me mostrar". Queria aparecer sim, mas não ao modo corpo-rosto bonito da maioria dos fotologueiros. Na verdade, eu era um anônimo. O nome do fotolog era Instante Eterno (que hoje soa quase como uma profecia sobre o destino do próprio flog) e o objetivo era aliar fotografia e literatura. Postei alguns dos primeiros textos desse blog ilustradosu sempre com uma foto que remetesse ao tema do post. Eis que descobri um escrito que nem me recordava existir e que serviu de abertura para o fotolog. Segue abaixo com algumas adaptações...
Beijos ao leitores!

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A fotografia queria ser arte. Desafiou a poesia prum duelo de morte: só o mais forte sobreviveria.
Logo se gabou: "A voz do povo é a voz de Deus. E dizem que um imagem vale mais que mil palavras. Seu exército prolixo não será páreo pro disparar de meu gatilho preciso!" A poesia retrucou:

"Surgiste há pouco e queres desafiar a mim?
Sou da humanidade uma tradição secular,
desabafo silencioso dos que preferem não gritar,
consolo da vida, esse sofrimento sem fim ."

O duelo descobriu-se interminável. Cada golpe que sofriam do oponente os fortalecia mais e seus golpes feriam a si mesmos. Era a soberba quem os machucava. Então perceberam que eram arte justamente quando não tinham a pretensar de ser. Viram-se derrotadas por si mesmas. Era a pior das sensações.

Abaixaram a cabeça e decidiram regressar. Já haviam perdido a noção do tempo. As cores do dia se misturavam com as da noite mas não sabiam se o que vinha era a madrugada ou o alvorecer. Caía uma chuva fina e o vento que vinha da costa lhes fazia estremecer. Abraçaram-se e voltaram juntos pra casa, comtemplando as águas diáfanas e dançando ao som do vai-e-vem das ondas.

Dalí em diante resolveram que andariam juntas. Aqui. Sem pretensões, apenas sendo o que sempre foram: sinceras.

...

Monday, February 26, 2007

Sobre a anti - democracia da democracia

Os reveses daqueles que chegam ao poder e “esquecem” seus “ideais” e as voltas que as leis e os mecanismos da própria democracia permitem suscitam certa descrença naqueles que se encontram inseridos como mecanismos desses mesmos fenômenos, ou seja, nós.

É a democracia em si mesma anti – democrática, permitindo que poucos usurpem o poder em benefício próprio, ou são os tais detentores do poder que usurpam todo o potencial democrático da democracia em proveito próprio? Ou seriam as duas coisas?

Uma resposta daquelas que encerram as questões sem nada esclarecer poderia ser: o problema é que “a democracia de verdade” ainda não foi implantada.

É claro, assim como o “socialismo de verdade” e o “liberalismo de verdade”.

Não creio que isso leve alguém a algum lugar. A guerra entre ideologias também não parece oferecer uma saída decente.

O trecho a seguir, do livro Glob(AL) – Biopoder e luta em uma América Latina Globalizada, de Giuseppe Cocco e Antonio Negri, é um exemplo da primeira questão, sobre os males que a democracia causa a si:

“Na realidade, o poder é sempre corrupto, pois é fruto da corrupção da democracia, de sua limitação, de sua despotencialização, ou seja, da redução da potência de muitos ao poder de poucos (mecanismo fundamental da soberania hobbesiana que a democracia representativa confirma e legitima). O poder nasce da corrupção!”

Quanto à segunda questão, se os detentores do poder são os “culpados” por tudo de errado que a democracia parece encerrar, temos aqui um trecho, via Polimidia, que por sua vez o colheu no Ex-blog do César Maia:

“Sempre agitam a ilusão prévia de libertação, que logo se corrompe com assassinatos, campos de concentração e tirania. Pareceria que continuavam lançando chispas à maldição etimológica, porque em vez de conduzir ao futuro, a tração é para trás, em direção aos males que pretendia corrigir. Muda a decoração e os atores. Mas não o roteiro.”

Seriam essas as premissas básicas da democracia?Um sistema corrupto que existe apenas para beneficiar os poucos que alcançam o poder por meio de falsas promessas?

Em A Ilusão do Sufrágio Universal, Mikhail Bakunin, aborda esses mesmos tópicos:

“Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. (...) tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?”

Ele chega a uma conclusão alguns parágrafos depois: “Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam, enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que dominam. Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no mundo. Isto é o que também explica como e porque os democratas mais radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente consideradas atos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a mudança de posição e, portanto, de perspectiva”.

E a conclusão final: “Na realidade, o controle exercido pelos eleitores aos seus representantes eleitos é pura ficção, já que no sistema representativo, o controle popular é apenas uma garantia da liberdade do povo, é evidente que tal liberdade não é mais do que ficção”.

A descrença na democracia levou Bakunin a se tornar um dos ícones do Anarquismo. César Maia é prefeito do Rio de Janeiro, já Cocco e Negri são pensadores da esquerda (um tanto destoantes do pensamento mais geral da esquerda, mas ainda o são).

A única conclusão a que posso chegar (perdoem-me os que leram esse texto até aqui) é apenas a confirmação do que eu já havia dito muitos parágrafos acima. A guerra de ideologias não leva a nenhum lugar, posto que a descrença naquilo que coordena a mesma guerra não é sequer crível aos que se empenham no embate.

A democracia é um exercício de construção contínua. Ela nunca está pronta, portanto não existe a “democracia de verdade”. Quanto aos “entretanto” que esta forma de governo proporciona, só posso dizer que ainda não inventaram nada melhor. Nem “de mentira”, nem “de verdade”.

Saturday, November 11, 2006

Espírito Santo conectando saberes

Não era mais um seminário como qualquer outro. Algo diferente permeava os ares do alojamento improvisado nas quadras do Centro de Educação Física e Desportos da UFRJ, localizado lá pelos cantos da capital fluminense, onde a cidade nem é tão maravilhosa assim. Para chegar à Ilha do Fundão era preciso atravessar a famigerada Linha Vermelha, na qual o pessoal que vinha no ônibus da frente viu dois homens fortemente armados cruzar a pista na maior tranqüilidade, como se tudo aquilo fosse normal. E talvez seja normal mesmo, pelo menos no Rio de Janeiro. Depois de umas 8 horas de viagem chegamos ao local. A maioria, sem conhecer a cidade, perguntou inocentemente onde estávamos... Será que era perto do Cristo, do Bondinho, do Maracanã? O simpático carioca não fez cerimônia pra estragar a euforia dos capixabas: “Estamos perto da Faixa de Gaza”. O recado foi imediatamente entendido.

Mas é claro que não escrevo para falar do tema violência no Rio de Janeiro, até porque não tenho conhecimento muito profundo sobre ambos. E também não eram esses dois- violência e Rio de Janeiro- alguma novidade; já existem há um bom tempo. O que não existia até o ano passado era o Seminário Nacional do Programa Conexões de Saberes, que reúne estudantes de origem popular de universidades federais de todo o Brasil, coordenadores locais e nacionais do programa e representantes da sociedade. O primeiro seminário nacional foi realizado em 2005 em Recife. Um ano depois, o programa se reunia novamente com muito mais força, agora com a presença de estudantes 32 universidades. Nós chegávamos “tirando onda”, como diriam os cariocas. A Ufes trazia dois ônibus lotados e a maior delegação do país. Ao longo do seminário ficaria claro que não era só quantidade, havia também qualidade vinda da terra da moqueca.
Após as devidas acomodações, paulatinamente conhecemos a vizinhança. Em pouco tempo, ao som de Raul Seixas ou Chico Buarque ou algum outro desses imortais da música brasileira, rompia-se as fronteiras entre Espírito Santo e Pará e começava a troca de sons, experiências, brincadeiras, amizades...

Andar pelos corredores, conversar com estudantes de outros lugares, participar dos grupos de trabalho ou ouvir os representantes do estudantes durante as palestras nos deixavam cada vez mais uma certeza, que se dividia entre uma alegria e uma tristeza. Parecia certo que, vencidas as limitações geográficas, o Brasil vira uma torre de babel. Não que não nos entendêssemos, muito pelo contrário. Era muito curioso e divertido ouvir os diferentes modos de falar, ritmos, sotaques. Era enriquecedor perguntarmos que diabos significa tal palavra que o colega do Maranhão pronunciara ou remedar os paranaenses, puxar os esses no final das palavras como fazem os cariocas. A dúvida constante era sempre: capixaba tem sotaque? Embora os espírito-santenses costumem negar, lá de fora todos dizem que temos, que “falamos cantando”, entre outras definições. Ouvir todas aquelas variações e saber que tudo, no fundo, era Brasil, provocava quase que um gozo cultural. O triste é que aquilo só duraria cinco dias, que depois de voltar pra casa ligaríamos na TV Globo e tudo voltaria a ser bonito, sofisticado e uniforme, padronizado. Falso. A formatação que assassina a diversidade do país e impede de ver o que faz do brasil, Brasil.

País a fora, o programa encontrava-se em diferentes estágios em cada universidade, de acordo com o tempo em que está atuando, com os problemas que enfrenta e com o grau de organização em cada lugar. Claro que as diferenças não eram para um se gabar em relação ao outro, mas para compartilhar experiências bem sucedidas e fracassadas para ajudar o programa a se crescer em outros lugares do país. Nesse sentido, o jornal Conexões, produzido pela Ufes e distribuído no seminário, fez sucesso. Além da excelente qualidade visual era uma forma de mostrarmos o que tínhamos desenvolvido aos outros presentes.
Na mesa de abertura tornaria-se logo perceptível o quanto o Conexões estava dando resultado no Espírito Santo. Era o lançamento dos livros Caminhadas, coletânea de textos de bolsistas do programa que contavam suas histórias desde a infância até o ingresso na universidade. Cada instituição lançava um livro. À exceção da presença de uma representante dos estudantes na mesa, a abertura do evento parecia qualquer um destes seminários, em que intelectuais e representantes da sociedade civil, de instituições governamentais e universitárias explanavam. Porém, cada um dos debatedores carregava nas costas uma luta de longa data para construção de um outro país e demonstrava ver naquele evento uma grande realização.

Após falas fortes e emocionadas, foi a vez de alguns dos autores dos livros lerem trechos de seus escritos. Novamente os sotaques se misturavam. Da história da paranaense que era empregada doméstica e chegou à universidade ao relato de uma nordestina contada em forma de cordel. Arrepiei com a fala de um estudante de medicina que após ler parte de seu texto berrava em apelo para que sua história não fosse mais apenas uma grande exceção. Havia sido pedido de última hora a produção de um vídeo que resumisse um pouco dessas caminhadas dos estudantes de cada universidade. Apenas a Ufes conseguiu concluí-lo e apresentá-lo. A platéia assistiu atenta e se emocionou. Por certo algumas daqueles depoimentos lembravam muito o caminho percorrido por outros ali presentes.

Caminhadas frustrantes eram as que fazíamos até o banheiro, quase sempre sujo. O alojamento era em ginásios esportivos. Ficava muito quente e não tínhamos para onde escapar porque o campus era bem isolado de tudo. Mas claro que a programação incluía momentos livres e oferecia passeios para que os estudantes de origem popular pudessem conhecer a cidade tão contrastante. Alguns foram até os “cartões-portais”da Zona Sul, outros visitaram favelas como o Complexo da Maré. Houve quem teve tempo para conhecer os dois Rios de Janeiros. Alguns ainda deram uma “fugida” para, por exemplo, ir ao Maracanã ver o Flamengo jogar. Uns pela paixão pelo time e outros apenas para sentir a emoção de assistir a um jogo no estádio histórico. Era uma oportunidade única para eles.

O algo diferente que havia naquele seminário, o que o diferenciava da maioria dos outros, era o Fórum Nacional dos Estudantes de Origem Popular. Como o próprio nome já indica, eram eles os protagonistas: jovens, estudantes, negros, índios, pobres. Cada estado trazia a experiência (ou a falta dela) na construção dos seus fóruns locais para ajudar na formação do fórum nacional. Novamente a contribuição do Espírito Santo foi muito importante. Chamou-me a atenção a atuação de um colega capixaba que procurou pessoas das várias universidades do país para que pudessem manter contato permanente mesmo depois do encontro. O primeiro dia foi muito esvaziado. Frustrante. Por isso, os estudantes presentes na primeira plenária decidiram se mobilizar para que no dia seguinte passassem todos nos alojamentos acordando a galera. Um “boooooooooom dia!” terminava o texto ensaiado para acordar as pessoas. Houve quem nem se mexesse, envolto no sono profundo. Não é que um sujeito foi carregado, em seu próprio colchão, até o local da plenária? O dorminhoco só acordou quando colocado em cima do palco, às gargalhadas do público presente.

Alegria, alegria. Dança, música, interpretação, protesto. Assim ficaram marcadas as apresentações culturais que as universidades levaram. A encenação capixaba que foi logo no primeiro dia foi feita ao som de rap. “Salve o povo espírito-santense/ herdeiro de um passado glorioso/ somos nós a falange do presente/ em busca de um futuro esperançoso”. A música continha o refrão do nosso hino junto com texto poético sobre o estado. Hip-hop completo: letra de rap, um painel de grafite decorava o fundo e o break rolava na pista. Tudo feito por conexistas ou colabores do programa num grande esforço coletivo. Entre a riqueza de nossa cultura e a beleza de nossos mares e montanhas não poderia faltar nesse caldeirão a crítica social. Especialmente à multinacional Aracruz Celulose (e à mídia que é sua aliada) pelo desrespeito com as comunidades indígenas e quilombolas locais. Pra completar, ao fim da apresentação começou a circular um abaixo-assinado contra a empresa e em defesa das comunidades nativas. Emoção foi, ao fim da encenação, ver toda a delegação capixaba subir junta no palco, pular e gritar o refrão. Somos o povo espírito-santense. Com muito orgulho e muita luta. Aplausos de pé. O mesmo aconteceria com a apresentação da Bahia. Só que ao invés de aplausos estáticos, as palmas vieram de um público que já dançava misturado aos atores. Virou uma grande roda de dança.
Não poderia esquecer dos paraenses, nossos companheiros de alojamento. Por problemas de organização, a apresentação deles havia sido adiada e corria risco de não acontecer. Capixabas e mineiros solidariedaram-se e uniram-se a eles para pressionar em favor da apresentação do “Auto da Educação” elaborado pelo Pará.

As comunidades, parte importante do Programa Conexões de Saberes, também tiveram oportunidades de mostrarem seus talentos. Entre outros, assisti a um grupo de deficientes físicos darem um show de dança sob cadeiras de rodas, um grande exemplo de superação. Contudo, o que mais emocionou foi a apresentação de um grupo de dança da Favela da Maré. O tema era a situação das crianças das periferias brasileiras. Quando cheguei já havia começado, mas não tive como não me emocionar. E por certo não fui o único. A expressão dos corpos, as músicas fortes, o olhar fixo que os atores faziam diretamente ao público, como que cobrando alguma atitude perante tanta injustiça. Os dedos apontados para nossa cara. Era ao mesmo tempo doloroso e satisfatório. Doía no sentido de percebermos que ainda fazíamos muito pouco para mudar essa realidade. E nos dava esperança o fato de que apesar de tudo, eles estavam ali, fazendo diferente, fugindo do caminho da violência e das drogas e fazendo arte. Arte! É o que toda criança jamais poderia ser privada de fazer...

Emocionada com a apresentação, uma amiga sentada na primeira fila chorava copiosamente. Ao perceber, uma das dançarinas- das que encarava o público com uma expressão sisuda- também chorou. Ao fim da apresentação a atriz-dançarina veio pedir-lhe um abraço. A artista explicou por que também se emocionara: seu primo fora baleado há uma semana quando chamava um táxi para levar seu pai que tinha tido um ataque cardíaco para o hospital. O caso havia saído nos jornais: os tiros foram disparados por um policial que pensou que ele fosse um bandido. Saldo: pai e filho mortos. Histórias macabras como essas, de fazer inveja a qualquer roteirista de cinema violento, são tão reais quanto próximas de nós. Aquela apresentação e essa cena final ainda martelam na minha cabeça, e já renderam boas reflexões, auto-críticas e alguns poemas descompromissados. De volta à nossa terra, além da bagagem trouxemos novas amizades que estavam bem ao nosso lado mas não havíamos tido muito tempo pra conhecer.

Por fim, restou a certeza definitiva de que a política é totalmente indissociável da cultura. E que política e arte tem que se abraçar, beijar, esfregar, copular. Como escreveu uma amiga: “a política deve, além de abusar da arte pra se tornar palatável, incentivar toda arte. E a arte deve beber também política para não ficar vazia”.

Sonhos em Cacos

Ao entrar na universidade descobrimos que C.A não é só o nome uma das turmas que passamos durante o jardim de infância. C.A. é superior. Ensino superior. C.A. é Centro Acadêmico. Significa justamente o fim da infância e ingresso numa nova fase. Ao invés de crianças e ‘tias’, o C.A torna-se lugar de jovens. E de sonhos. De jovens senhores de si mesmos, sem ‘tia’, pai, mãe ou professor. Lugar de ter voz ativa, pra no nosso destino mandar!¹

Fazer Comunicação Social na Ufes significa ter como primeira referência o Centro Acadêmico - o Cacos. A princípio, é de grande satisfação ver os próprios estudantes se organizando para lhe receber nessa nova fase da vida. À segunda vista, vêm as críticas: não há pluralidade de pensamentos, só participa quem está alinhado com a direção, há uma ‘espiral do silêncio’- como diz a teoria da comunicação- que faz com que as vozes mais frágeis se calem. Dessa forma, a participação no espaço acaba sendo menor do que poderia, o C.A. deveria representar TODOS os estudantes e blá blá blá. A partir daí uma névoa lhe separa do espaço que você havia achado tão legal e importante. Até aí todo mundo vai. Mas o terceiro passo só é dado por alguns. Para dar esse passo adiante e vencer a névoa é preciso ter no coração uma certeza mais forte que as da sua mente. Fechar os olhos, preparar as pernas, tomar coragem e correr rumo ao estranho. Talvez você pegue tanto impulso visando a derrubar a porta e chegar fazendo barulho. Mas muitas vezes a porta estava aberta e a neblina não lhe deixou ver. É o seu primeiro tombo. Um tombo moral.

A partir daí suas críticas feitas lá fora começam a esvair-se diante da realidade lá de dentro. É meu jovem, mudar o mundo não é tão fácil quanto nos seus sonhos. Mas o choque com a realidade lhe dá a maturidade necessária para alimentar seus novos e antigos sonhos. Diversas escolhas e opções abrem-se em leque. Você descobre que muitos dos seus inimigos na verdade querem o mesmo que você. Só que acreditam que o caminho é outro. Bem-vindo ao movimento estudantil. Aqui as mentes comandam corações-gêmeos que brigam entre si. Dá vontade de fugir. Porque ninguém se entende nessa torre de babel? É o seu segundo tombo moral. Levantar-se dessa vez é mais difícil. Alguns, sem olhar ao redor, desistem aí. Outros percebem que ao lado têm mãos estendidas para lhe ajudar a levantar. Depois de erguer-se por essa segunda vez, os próximos baques que virão dificilmente irão lhe derrubar.

A partir daí você torna-se parte efetiva do movimento estudantil. Não precisa se filiar, não tem que assinar em nenhum lugar, não precisa pagar nada. Mas agora você é refém, fica difícil sair. Fica difícil abandonar os sonhos e simplesmente seguir sua vida individual. É preciso sacrifício, dedicação, altruísmo. Agora você é cobrado, tem que dar satisfação aos outros e a si mesmo.Você não reclama, porque o movimento estudantil lhe é útil. E vice-versa. Sem perceber, a sua doação coletiva também contribui com sua satisfação individual. O crescimento como cidadão você só se dá conta quando olha pra trás e lembra de como você era antes, das desconfianças e dos tombos morais.

O caminho dessa longa estrada pode ser feito em diferentes velocidades, de acordo com o ritmo de cada andarilho. E por essa caminhada é uma grande felicidade encontrar companheiros que diminuem o ritmo e lhe esperam pra poder mostrar o caminho que já conhecem. E aos poucos você percebe que tem que fazer o mesmo com outros que estão vindo. Sei que nos encontramos em algum ponto e a partir de lá seguimos todos de mãos dadas acreditando que assim iríamos mais longe. Os tropeços, os risos, a viola, as bebidas, as piadas, as idéias foram parte da construção. E agora, estávamos de volta ao ponto de partida. Era o Cacos. Estávamos sentados em roda. Mais tarde, a roda ganhou vida e girávamos na grama. Conseguimos compor a melodia, pintar o quadro a várias mãos. Faltavam só os aplausos. Mas aí é que estava o maior desafio.

As palmas seriam votos e os votos eram disputados. Existia A Outra. Alguns consideraram traição. Mas agora era seguir em frente. Mostrar que numa moldura clara e simples éramos exatamente aquilo que se via². Oferecer nosso corpo inteiro para ser observado, dissecado, remexido. E foi. O resultado é que a maior parte não nos preferia. E ponto final.

A Outra era estratégica e sabia jogar. Seu nome era maior do que si mesma. O nome simbolizava aquilo que não era, pois não tinha nada de novo. As propostas eram muito parecidas com as nossas. Caderninhos e cochichos podem ter captado nossa fala. Mas talvez nem seja isso mesmo. Colocar-se como a diferente, a outra, é uma grande responsabilidade. E com certeza não corresponderam às expectativas. A outra concepção era justamente a falta de concepção, falta de conhecimento de como as coisas funcionam no universo que almejavam modificar. Os apoiadores realmente eram diferentes, o que não refletia nas propostas. O apoio sempre me pareceu apenas birra política. A crítica feita a nossa ousadia de tentar falar de política em forma de arte servia apenas pra avultar a fraqueza dos que eles apoiavam. A plataforma de cultura deles era pior que a nossa. Me doeu profundamente ler, só no dia das eleições, a proposta pífia de movimentos sociais e articulação política. “Não almejamos a ruptura completa com os movimentos sociais”. Traduzi semioticamente como um ‘não iremos criticá-los ou expulsá-los, mas também não faremos nada por eles’. Parece também uma concessão ao eleitor-consumidor que não gosta ‘desse negócio de MST’. A ‘política de boa-vizinhança’ com a Enecos, colocados por eles como um grito de independência, soa como uma fuga da responsabilidade da construção do movimento. E novamente uma boa cartada pra conquistar votos.

O mais espantoso viria no último dia de eleições, durante a assembléia. Uma chapa composta por onze estudantes que se propõe como gestão de centro acadêmico e representante dos estudantes, não indica um nome sequer para ser delegado do Coneufes, a instância máxima de organização estudantil dentro da nossa universidade. Um espaço francamente democrático e extremamente importante. Ora, se os (candidatos a) representantes estudantis não se propõe a participar desse espaço quem iria nos representar? Felizmente nós, a outra da Outra, estávamos lá marcando presença. Como sempre foi. Sem fugir da responsabilidade.

Mas de que valeu toda nossa discussão? O que a maioria dos votantes queria não era o debate político. Venceu o discurso vazio de ‘fora pseudo-engajados’. A tese que venceu foi a da espiral do silêncio. O triunfo foi do ‘todos tem que participar’, sendo que a maioria nem quer. Na verdade alguns dos próprios candidatos deles não demonstraram estarem muito interessados. Por enquanto continua viva na imaginação deles que é simples resolver os problemas junto ao departamento, que ‘é só mobilizar a galera’. De que é só chamar a assembléia que vai aparecer um monte de gente querendo discutir.

Creio que o tombo moral será muito grande. Os dois tombos que nós tomamos vão vir de uma vez só pra eles. Vai machucar. Vai dar vontade de desistir. E creio que no chão, sem referência, eles olharão pra nós. Com vergonha e sem coragem de pedir desculpas. Acho que nem nos devem desculpas. Seguiram suas utopias. Agora dificilmente poderão se safar do ‘choque de realidade’, que é saudável e natural. Se não desistirem de cara, sairão de lá muito mais maduros. Perceberão que o centro acadêmico que volta-se apenas a si mesmo como forma resolver todos seus problemas vai esbarrar no próprio narcisismo. Sozinho, suas forças são muito limitadas. A sacada lógica de que é preciso se voltar para o curso para resolver seus problemas não passa da mais pura ingenuidade ou burrice. Dizia a colega de chapa que ‘o todo sem a parte não é todo’. Olhar somente pra si mesmo é fugir da responsabilidade de sermos maior do que nos foi permitido. É limitar um universo que é infinito.

De forma alguma me sinto derrotado e espero que todos os companheiros dessa luta não abaixem a cabeça e sim batam no peito com orgulho. A lágrima o tempo seca. Já diziam alguns professores que o importante é o processo. O centro acadêmico não é um fim, é um começo. É um ensaio de mundo, uma tentativa de puxar a linha do horizonte. É a semente que quer fazer da monocultura floresta nativa exuberante. Uma pequena fortaleza de resistência. De soldados que lutam sem ver a face do oponente e muitas vezes sem saber quantos são seus aliados e nem onde estão. Lutam porque tem que lutar. Porque acreditam na luta. Porque sabem que só fazendo a sua parte poderão mudar o todo.

Claro que doeu ver o sonho desmantelado antes de começar a acontecer. Sonhos em cacos. Sonhos em Cacos. Fica o vazio de ter certeza que estando lá poderíamos fazer melhor. À colega que chorava fica a certeza de que nada daquilo foi em vão, que muita coisa foi construída. Ao colega que lamentava poder ter feito mais, lembre-se de tudo que já fez e do muito que ainda pode fazer. ‘Nem sempre a fraqueza que se sente quer dizer que agente não é forte’³.

Sempre estivemos lá e não é agora que abandonaremos o Cacos. Ele precisa de nós e nós precisamos dele. E estaremos lá pra construir e desconstruir, concordar e discordar, ouvir e falar. Oposição é palavra muito forte. Seremos o que sempre fomos. Valentes, criativos, dedicados, sinceros. Só que em outra posição, outra conjuntura.Vamos viver o presente que o futuro nos espera.

Aos que me proporcionaram essa emoção
A todos que acreditaram em nossa construção
Dedico-lhes em meu último verso inspirado
Um sincero e profundo muito obrigado

Acaba aqui a poesia. Agora a crítica política ganha a seriedade do olho no olho.

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¹ Da canção Roda Viva, de Chico Buarque ‘Agente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar’. Roda Viva era o nome da chapa derrotada nas eleições do Cacos
² Referência à música Retrato pra Iaiá, dos Los Hermanos. ‘Numa moldura clara e simples sou aquilo que se vê’
³ Da música ‘Palavras Repetidas’, de Gabriel O Pensador com participação póstuma de Renato Russo
Obs: as palavras em negritos representam alguns dos nomes sugeridos para a chapa que veio a se chamar Roda Viva

Friday, October 20, 2006

Resenha do debate “O Caso Aracruz: A Criminalização dos Movimentos Sociais pela Mídia”

O diretor do Diretório Central dos Estudantes da Ufes (DCE/Ufes) e Coordenador Regional da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (Enecos) Danilo Bicalho iniciou sua fala ressaltando que durante essa Semana de Democratização da Comunicação ocorre simultaneamente em todo Brasil, como forma de resistência dos estudantes de comunicação e dos movimentos sociais à estrutura de mídia e comunicação que temos hoje no país. A Semana surgiu em 2003 e serve pra o movimento estudantil de comunicação para externar à sociedade o acúmulo de debate feito dentro da Enecos e do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

A luta pela democratização da comunicação é pautada a partir da visão da comunicação como um direito humano, assim como o direito à saúde, à educação. Ressalta-se que não é apenas o direito de receber comunicações ou de ter um aparelho de TV em casa, e sim o direito de produzir comunicação e mostrar qual a sua visão de mundo.

O sistema de comunicação brasileiro é quase exclusivamente privado, com alguns veículos estatais e pouquíssimos realmente públicos. Nove famílias dominam grande parte do sistema comunicacional do Brasil. Vários veículos de comunicação estão nas mãos de políticos, o que é proibido por lei.

A comunicação tem importante papel na construção de pensamentos hegemônicos, seja pela informação que é passada ou pela sua omissão. Como exemplo, cita as distorções feitas pela mídia sobre o governo de Hugo Chávez e a questão indígena com a Aracruz Celulose.

Desafio de construir uma comunicação realmente popular. Para construir o imaginário popular de que é possível mudar a sociedade em que agente vive. Não adianta simplesmente tentar os meios de comunicação já existentes, mas criar os próprios meios.

Marcelo Calazans, da Fase, leu algumas manchetes de jornais acerca da destruição do viveiro da Aracruz Celulose por mulheres da Via Campesina para mostrar a visão agressiva e superficial da mídia.

Ele fez a crítica ao modelo de grandes projetos industriais implantado no Espírito Santo há 30 anos e considera a Aracruz Celulose um alvo privilegiado, talvez devido ao maior espaço territorial que ocupa. Projetos de extração e exportação, que gera muita riqueza para poucos.

Critica a indústria cultural capixaba. Modelo acelerado de construção de um imaginário urbano em detrimento do espaço rural tradicional no estado.

Indígenas e quilombolas tratados como invasores, mas a Aracruz Celulose, não. É preciso criar uma narrativa que valorize as culturas.

O ato dos estudantes na abertura da Feira do Verde não rendeu uma linha nos jornais. Foi um fato jornalístico indiscutível, uma vaia de 40 min frente ao prefeito e ao governador em exercício.

Desistiu de enviar releases para a mídia, isso só serve para grandes empresas inaugurarem alto-forno, por exemplo. Repórteres querem ver índio com celular e tênis da Nike. Temos que perder a ilusão de disputar espaço na mídia e criar nossos próprios espaços.

É possível fazer três tipos de pressão: criar mídias, criar fatos ou furar o bloqueio regional conquistando espaço em jornais internacionais.

A mídia é uniformizada, parte de um espaço central. O termo “deserto verde” desperta curiosidade, rompe com a monovisão. É preciso acabar com a monocultura, com a monogazeta.

Flávio Gonçalves, do Coletivo Intervozes destacou os dois cartazes presentes no evento: Cacos e Bandeijão. A realização do programa Bandeijão na Rádio Universitária só foi possível porque os estudantes, organizados no Centro Acadêmico (Cacos) reivindicaram esse espaço. Ressaltou que os estudantes presentes ali seriam os comunicadores de amanhã.

Problemas financeiros das mídias alternativas como o Jornal Brasil de Fato. Meios de comunicação não discutem a própria mídia. Trata-se de concessões públicas, é preciso ter controle sobre elas, o que não significa censura.

Saturday, September 16, 2006

"O presídio é a lata de lixo social"

As fotos revelavam fatos que todos pareciam já saber: a precariedade do sistema carcerário capixaba e os maus-tratos aos presidiários. Depois da exibição de algumas fotografias em um telão iniciou-se a palestra para as poucas mas interessadas pessoas que se dispunham a estar na Ufes sexta-feira à noite, horas antes do início de uma festa que haveria ali ao lado. A frase que intitula esse texto, proferida posteriormente pelo professor Júlio Pompeu, sintetiza o modelo carcerário atual.

O tema era Mídia, Segurança Pública e Direitos Humanos. Infelizmente, os principais atores da polêmica que motivara a promoção desse debate não entrariam em cena. Isabel Lacerda, militante da Pastoral Carcerária, apontada na imprensa como aliada do crime organizado depois da divulgação de gravações de conversas suas com presos, não pôde comparecer. Marcus Monteiro, jornalista de A Gazeta que escreveu algumas das matérias sobre a militante, havia confirmado presença por telefone e e-mail mas cancelou de última hora alegando que não foi autorizado pela editora do jornal.

Apesar desse ponto fatual ter sido deixado um pouco de lado devido às ausências, o debate não deixou de ser bastante interessante. Isaías Santana, ativista dos direitos humanos, comentou as imagens exibidas afirmando que a tortura é uma prática histórica do Brasil, presente desde a chegada dos escravos negros e que persiste em pleno século 21, na vigência do estado democrático. Para ele, pior que a tortura física é a tortura psicológica exercida contra os presos e seus familiares.

Ele afirmou que apenas 10 a 15% dos cerca de 7 mil presidiários capixabas são criminosos perigosos e que a criação de um presídio de segurança máxima no estado resolveria o problemas em relação aos presos de alta periculosidade. Além disso, destacou o problema das instituições que abrigam menores, como a Unis, que servem como mera "cadeia para crianças".

Santana afirmou não ser possível discutir sistema penitenciário sem discutir segurança pública. Para ele falta de credibilidade da Polícia Militar e, agora, também do Batalhão de Missões Especiais (BME) e da Força de Segurança Nacional, que tentam manter a ordem nos presídios capixabas. "Não há como recuperar ninguém com o sistema de hoje, em que há superlotação nas prisões e falta de estrutura e preparação nas delegacias". O militante diz que inverte-se a lógica: primeiro prende, depois investiga. Segundo ele, a presença de assistentes sociais, psicólogos e profissionais de direito nas delegacias garantiria uma redução significativa do número de presos por pequenos delitos.

Além disso, de acordo com Santana, pesa o fato de que os presídios são lucrativos para os "coronéis". Ele denunciou a omissão e conivência do Estado: "Presídio é igual pobreza, dá dinheiro. O governo não tem interesse de mudar". Santana não deixou de criticar o sistema judiciário, o qual classificou como "irresponsável e sem nenhuma visão social". O ativista afirmou existir advogados extorquindo pobres e esquemas de venda de sentenças: "Quem tem dinheiro compra fuga".


A cobertura da mídia

A seguir a foi a vez de da representante do Sindicato dos Jornalistas de Vitória Inês Simon, que também é assessora técnica da secretaria de segurança urbana de Vitória, fazer sua explanação. Ela manifestou sua insatisfação com o jornal A Gazeta por desrespeitar o debate ao não liberar o convidado. Bastante didática, a Simon afirmou com convicção que não temos liberdade de imprensa, visto que o governo oferece concessões públicas para grandes famílias comandarem serviços de mídia e não tem controle nenhum sobre elas. "O jornalismo é organizado como negócio privado e não atende ao interesse social".

A palestrante definiu o jornalista como o profissional credenciado para mediar os fatos, daí sua grande importância para a democracia e para a liberdade. Desse modo, o jornalista não pode deixar que sua visão particular influa na produção de uma matéria. Segundo ela, a reunião de pauta, na qual são decididos os temas a serem abordados pelos jornais é influenciada indiretamente pela gerência das empresas, já que muitas vezes os pauteiros e chefes de redação têm ligação com os executivos.

Acerca da polêmica que envolve a atuação da militante Isabel Lacerda na Pastoral Carcerária, a sindicalista considera a apuração do jornalista Marcus Monteiro correta, pois a acusação foi induzida pela fala de uma autoridade entrevistada, porém sem comprovação. "As acusações foram baseadas num trecho de fala que não constitui crime, não prova nada."

A respeito dos grampos, Simon queixou-se do Sistema Guardião, usado no estado no combate ao crime organizado. Segundo ela não há privacidade em ligações telefônicas no Espírito Santo, chegando-se a ponto de toda a redação da Rede Gazeta ser grampeada, sem que ninguém assumisse a responsabilidade até hoje.

Sobre a cobertura da imprensa, afirmou que os jornais não se aprofundam na questão da segurança pública porque desgasta o Governo, que é um dos grandes anunciantes. Ela também observou que muitas vezes os meios de comunicação defendem as empresas e criminalizam os movimentos sociais, como na cobertura da Rede Gazeta sobre o conflito entre a empresa Aracruz Celulose e as populações indígenas. A sindicalista diz ser comum encontrar preconceito em algumas matérias, embora o código de ética jornalística destaque a defesa dos direitos humanos, respeito às diferenças, cidadania e democracia. Ela mostrou duas matérias de uma mesma página do jornal de A Gazeta que apontam o tratamento diferenciado dado a jovens de classe média e de periferia que cometem delitos. No caso de adolescentes de um bairro nobre de Vila Velha flagrados com drogas, não havia qualquer menção a seus nomes (nem das inicias no caso de menor de idade). Numa matéria logo abaixo, aparecia o nome completo de jovens suspeitos de delito, porém oriundos de bairros de periferia.

Simon considera que os jornalistas não têm liberdade de expressão dentro dos jornais e que isso poderia ser revertido através da regulamentação da profissão e da criação do Conselho Federal de Jornalismo, que foi deixado de lado devido à grande pressão dos meios de comunicação.


”O sistema prisional é um sucesso”

O professor de Direito e integrante do Núcleo de Estudos sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos da Ufes (Nevi/Ufes) Júlio Pompeu foi contundente em sua fala, iniciada com uma provocação: "O sistema prisional não é um fracasso, é um sucesso. Você que foi enganado quanto ao projeto e ao objetivo dele."

Para explicar sua afirmação, ele fez um resgate histórico ao século 18, quando teria nascido a prisão como forma de pena. O modelo de prisão vigente na época era o do panóptico, estudado por Michel Foucault, em que as penitenciárias possuíam uma grande torre em seu centro, de modo que era possível avistar todas as celas sem que os presos soubessem quando estavam ou não sendo vigiados. Tratava-se da sociedade industrial, na qual a disciplina do operário era fundamental para garantir a produtividade das fábricas. Isso se reproduzia no sistema carcerário da época: "O presídio reflete a sociedade", concluiu.

Pompeu afirma que hoje não se precisa mais do trabalhador devido ao grande desenvolvimento tecnológico, de modo que vivemos numa sociedade de exclusão, na qual a prisão se torna um depósito humano, uma "lata de lixo social". Para, ele parte da sociedade se omite em meio a isso: "Ao assistir ao filme Carandiru, por exemplo, muitos saíam das salas de cinema comentando coisas banais como o beijo homossexual de Rodrigo Santoro". Parafraseando Caetano Veloso, disse haver um "silêncio sorridente da sociedade diante de um massacre".

Sobre a área jurídica, o professor afirmou existir muitos processos escusos e contou um caso de duas crianças e um adolescente falecidos. O laudo de morte das crianças, que tinham menos de 10 anos de idade, foi feito em Aracruz apontava a causa como alcoolismo. Já a perícia do rapaz, feita em Vitória, indicava envenenamento em decorrência de agrotóxicos utilizados pela empresa Aracruz Celulose. Porém, o laudo dele sumiu do processo, que teve que ser arquivado.

Para encerrar sua fala, Pompeu afirmou que a luta social hoje se dá no campo simbólico, na atribuição de sentido às mensagens e que encontros como aquele são revolucionários. "Se a mídia não pauta, podemos discutir por nossa conta".

Sunday, July 30, 2006

Descendentes de escravos retomam área do antigo Cemitério Quilombola de Linharinho, em Conceição da Barra, ES (29/07/2006)